Décadas III: 70 - Repressão, Crimes e os Monstros Serial

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        1972- “Polícia é Polícia, bandido é bandido. É como a água e o vinho, não se misturam”. Lúcio Flávio Lírio Avellar ao ser preso por policiais da Furtos e Roubos, em Minas. 

 

Política.http:/veja.abril.com.br/

          O início dos anos 70 é marcado pelo chamado "milagre econômico" brasileiro. Com empréstimos e investimentos estrangeiros, a economia entra num período de crescimento surpreendente, com a criação de empregos em massa e a manutenção da inflação sob controle. No campo político, porém, o país vive na passagem de década o clímax da intolerância, com censura à imprensa e atos violentos contra a oposição. O presidente general Emílio Garrastazu Médici comanda uma política determinada a exterminar os grupos de esquerda, criando núcleos regionais de repressão vinculados ao Exército e abrigados sob a sigla DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna). Entra em operação ainda a Oban (Operação Bandeirantes), organização paramilitar financiada por empresários e composta por integrantes das Forças Armadas, Polícia Federal e polícias estaduais. Seus objetivos: a prisão, tortura e assassinato dos ativistas de esquerda.

 

  • Enquanto Carlos Alberto Torres, capitão da seleção levanta a Taça Jules Rimet no México, um outro capitão, Carlos Lamarca, monta guarda no Vale do Ribeira (São Paulo), para articular com jovens esquerdistas uma guerrilha contra o governo Médici e os militares. Lamarca seria morto pela repressão em 1971.

  • Três diplomatas são seqüestrados em 1970. O cônsul japonês Nobuo Okuchi, o embaixador alemão Ehrenfried von Holleben e o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Os três são devolvidos com vida em troca da libertação de opositores mantidos no cárcere pelo regime militar. Uma vez em liberdade, os ativistas têm de exilar-se no exterior.


Manifestações e prisão realizada pelo DOPS no centro da capital mineira. É interessante observar a calça pantalona xadrez, de um dos policiais, muito presente naqueles anos.

 

 

          Vídeo sobre a vida policial  nos anos 70.                                                        Ditadura, Censura, Consumismo, Comunicação: https://www.youtube.com/watch?v=ShWHbILNpU4

                                                                                           

        A incidência de assaltos a bancos aumentou nesse período, ao pretexto de que os crimes eram praticados por jovens idealistas que lutavam por uma causa justa, a oposição ao regime da ditadura. A polícia não estava aparelhada para esse novo perfil criminoso e em vários embates, policiais civis e militares tombaram mortos. Foram vítimas das balas ou bombas assassinas dos subversivos, apesar de nossas crônicas e livros de historiadores pouco falarem sobre esse lado da história. Os confrontos entre a polícia e estudantes inconformados com o regime, eram constantes na capital mineira, geralmente acontecendo na Praça Afonso Arinos e imediações, onde se transformava em verdadeiro campo de batalha. De um lado as pedras dos estudantes que atingia em profusão a polícia, do outro, detetives recém-saídos da academia, com cassetetes e bombas de efeito moral para enfrentar aquela balbúrdia. Há um detalhe interessante em relação à Polícia Civil e o momento de recessão pelo qual o país atravessava. Ao governo militar não interessava a presença de policias estaduais que tinham como doutrina de ação, o respeito ao cidadão, como a Guarda Civil, e que não possuíam vínculo direto com o governo federal. O General Castelo Branco, através de decreto extinguiu as Guardas Civis do Brasil, dando mais poderes às Polícias Militares, consideradas forças auxiliares do exército. Em razão dessa mudança, a Polícia Civil teve de assumir muitas das funções da Guarda Civil, devido ao despreparo da Polícia Militar naquele período e treinamentos anti-motins ministrados aos policiais civis. Em paralelo, quase desapercebido, o uso e o tráfico de drogas proliferavam em todos os cantos do estado.

          Princípio da década de 70 registra as primeiras mudanças em cargos estratégicos da Polícia Civil mineira: Antonio Lucena nomeado para a Superintendência de Polícia Técnica, José Resende para o DETRAN, Prata Neto Chefe do Departamento de Investigações e Lúcio Gentil para o Instituto de Identificação. O 4º Distrito Policial se destacava como a melhor unidade policial de 1874, com seu titular delegado Walter Lopes, escrivão Valter Joviano, o competente inspetor Dinalte e o prontidão Elair. A Companhia Renascença Industrial fazia sua propaganda de seus tecidos com estilos dos anos 70.

 

1971. O ASSASSINATO DE JÔ SOUZA LIMA 

                                                     

          O início da década de 70 foi marcado pela morte da Socialite Josefine (Jô) Souza Lima, filha do ex prefeito da capital, assassinada pelo marido, Roberto Lobato. O crime teve conotação passional devido a ciúmes do criminoso e abriria espaço para uma revolução feminina. Dois anos após o assassinato, Roberto Lobato foi levado a júri e a defesa apresentou como tese, a "Legitima Defesa da Honra", conseguindo sua absolvição. O resultado do tribunal do juri provocou a revolta e reação de grupos ligados as mulheres que rapidamente lançaram o slogan: "Quem ama não mata", dando início a uma cruzada contra esse tipo de impunidade e discriminação.

 http://ano70.com.br/violencia-nos-anos-70/

        

1972 - OPERAÇÃO MUTUM

   

          Mutum já foi conhecida de forma pejorativa, como “Matum”, devido à grande incidência de crimes de pistolagem que ocorria naquela região, desde os primórdios do século passado, quando os “coronéis” imperavam pelo poder de suas armas e jagunços. Dentro desse triste histórico, foi assassinado por pistoleiros o prefeito Gentil Simões Caldeira. Alguns diziam que em “Mutum, pistoleiro matava um de manhã e deixava outro amarrado no toco para matar à tarde”. Como a política sempre foi muito poderosa, Mutum foi convivendo com suas mortes e o acobertamento dos responsáveis, que dificilmente respondiam pelos seus crimes. No entanto, estamos falando dos anos 70, quando as reações já eram diferentes das décadas de 30 ou 40 e por isso, a morte do prefeito Gentil Simões Caldeira, ganhou notoriedade e cobrança de toda a sociedade pela forma covarde do assassinato. Em seguida, também por questões políticas mataram o vereador Emídio José Pereira, durante convenção partidária. A imprensa nacional alardeava os crimes de Mutum. Os delegados Renato Aragão e Luigi de Oliveira foram designados para as apurações e relataram o clima de revolta e insegurança na cidade. Foi então, decidido pela cúpula da Secretaria de Segurança, tendo como chefe da pasta o Coronel Odelmo Teixeira, Thacir Menezes Sia, Superintendente Geral, Cid Nelson Safe, pelo DOPS e Ediraldo Brandão, pela COSEG, que fosse desencadeada a “Operação Mutum”. Seria a primeira macro operação a ser desencadeada pela Polícia Civil de Minas Gerais.

As fotos registram diversos momentos da primeira grande operação da Polícia Civil no interior de Minas. Dentre os policiais aqui identificados, registramos os investigadores João Reis, Adão "Pezão", Itamar Thiago e os delegados Braúna e Prata Neto.

 
 O Planejamento Operacional

       A coordenação geral do Superintendente Geral Thacir Menezes e a gerencia operacional do Chefe do Departamento de Investigações, Prata Neto presentes em todas as fases da operação. Também participaram, os delegados Luigi (Delegacia de Vadiagem) e Braúna (chefe da REDI e ex-delegado de Aimorés), Ediraldo Brandão e Airton Garcia, pelo DOPS. Escolheram a semana de comemorações dos 150 anos da independência do Brasil, em 1972, para deflagrar a operação, buscando dar um sentimento de liberdade à população de Mutum, como foco dos trabalhos.

O planejamento dividiu a operação em seis setores:

Setor 1: Era a coordenação da operação, tendo seu QG montado no Clube Recreativo, centro da cidade.

Setor: 2- Foi incumbido do tramite das apreensões de veículos roubados, furtados, ou em situação irregular. Era muito comum o veículo ser roubado no Espírito Santo e levado para receptadores de Mutum. A fronteira fica Há menos de 50 quilômetros da cidade e era utilizado, principalmente, na zona rural o que facilitava a entrada dos mesmos em nosso estado e sua circulação ilegal.

Setor 3: Responsável pelo controle de entrada e saída de pessoas da cidade durante a operação. Fazia a identificação do cidadão e expediu mais de 1500 salvo conduto e carteiras de identidades.

Setor 4: Os policiais eram responsáveis pela identificação criminal, pesquisas e cumprimento de mandados de prisão expedidos pela justiça. Braúna foi o responsável pelo setor.

Setor 5: Todo o sistema de comunicações usado durante a operação ficou a cargo do inspetor Pantuzo e sua equipe. Montaram uma antena de 20 metros para contatos entre o QG, os rádios-comunicadores e o Brucutu (ônibus operacional do DOPS).

Setor 6: Tinha como função a manutenção dos veículos oficiais usados na operação, tendo atuado, já no caminho de ida, quando duas viaturas apresentaram defeito mecânico.

A operação, no planejamento 004/72, da COSEG, contou com 4 carros do DOPS, 3 do DI e 2 da COSEG. O DI forneceu 26 homens, a COSEG 6, Instituto de Identificação 1, Trânsito 3, perícia 1, o DOPS entrou com 14 policiais e 3 cães adestrados.

       A Polícia Militar participou da operação com sua atividade de policiamento ostensivo, através do Batalhão de Manhuaçu, com número não superior ao de policiais civis. Cuidavam prioritariamente das seis saídas e entradas de Mutum.

A Operação

 

       Cerca de 100 policiais civis e militares participaram da operação, com suas metralhadoras INA e carabinas. Detetives e delegados com cinturões de couro preto e revólveres COLT 45 nos coldres. Chegaram a Mutum na madrugada do sábado, que antecedeu o 7 de Setembro de 1972. O objetivo era o desarmamento da população e a prisão de criminosos que se tornaram alvos no planejamento realizado na capital. Tão logo a comitiva de policiais chegou a Mutum, já se espalhou pela cidade e zona rural, tendo como resultado, ao final do dia, a apreensão de diversos carros furtados, prisão dos criminosos Joaquim Mário Pinto, Otacílio Alves Faria, Osvaldo Jonas Lifonso, Benivaldo Jonas Lifonso e Olívio Almeida. Na parte da manhã, mais de mil salvo condutos foram expedidos e eram conferidos pelos policiais militares nas saídas da cidade. Quem não tinha o documento era impedido de sair, tinha seu carro vistoriado e às vezes conduzido ao QG. Carros, casas na zona rural e na cidade, charretes, carros de boi, cavalos, bicicletas, pessoas a pé. Tudo e todos eram revistados e conferidos. Várias mulheres da zona boemia foram conduzidas para interrogatório por envolvimento com pistoleiros e mandantes de crimes, fornecendo importantes informações para localização dos foragidos. Homens em fila indiana entravam a pé em Mutum, escoltados por policiais civis até o QG, onde eram interrogados em uma sala improvisada nos fundos do clube. Um grupo de escrivães foi escalado para mutirão nos inquéritos antigos de homicídios que abarrotavam a delegacia local. No saldo final, 16 pessoas foram presas, 500 armas apreendidas (carabinas, revólveres, polveiras, garruchas e outras), 800 quilos de munição.Inúmeros homicídios sem autoria foram apurados e confessados pelos pistoleiros e mandantes presos. Outros inquéritos, em que pessoas inocentes eram suspeitas, foram corrigidos responsabilizados os verdadeiros autores. Os irmãos Lamarca, Geraldo e José, foram presos por pistolagem, sendo uma família relacionada a muitos crimes com vinculação de políticos. Algumas incursões para prisão de bandidos foram feitas em Aimorés, Mantena e Vitória-ES. Aos cuidados do delegado Braúna, outro preso, Dario Aniceto Oliveira, responsável por um derrame de carteiras falsas naquela região.


Operação Mutum- A Preocupação com a Cidadania

          Paralelamente, o delegado Ediraldo Brandão se responsabilizava pela parte cívica da operação, coordenando a distribuição de remédios, material escolar e roupas para as pessoas carentes da cidade. Para os meninos de Mutum eram distribuídos bonés coloridos com o símbolo da independência do Brasil por ser a semana da pátria. Foram levados também, recursos médicos e odontológicos para atendimento da população, além das carteiras de identidades que foram confeccionadas pelo Instituto de Identificação, através do setor 4. Foi realizada, pelos policiais civis, uma demonstração na praça principal com os cães adestrados do DOPS, para a população mutuense e vacinação em massa dos cachorros da cidade. Os responsáveis eram os competentes detetives do setor de canil Calixto Fernandes e Geraldo Avelino, o “Borracha”, com seus espertos pastores alemães, “Dólar e Hanko do Havaí”. Foi uma festa de cidadania na cidade que contrastava com as inúmeras prisões, interrogatórios e o vai e vem de policiais.

Matérias dos Jornais Estado de Minas e Diário da Tarde

 

“Nas filas para distribuição de roupas e remédios, o povo está mais descontraído. Uma mulher gorda, com uma úlcera na perna, ganhou sulfa, e antes de sair, sorrindo, mandou chamar Ediraldo Brandão para agradecer. Um garotinho preto ganhou calça azul, camisa vermelha listrada, um vidro de xarope e saiu dando pulos. Outro ganhou tênis branco e ficou sentado na calçada, meio encabulado, admirando o presente. Assim está Mutum, desde que o dia amanheceu. Ocupada pela polícia o povo divide a surpresa com a esperança. Surpresa, diante do aparato policial, esperança, por dias de paz, sem banditismo.”

1972- DT: “MUTUM: 100 HOMENS DE FUZIS E METRALHADORAS PARA O DESARMAMENTO GERAL”

1972- EM: “SECRETARIA PROMETE RESPEITAR A LEI E EVITAR NOVAS VIOLENCIAS”

1972- EM: “MUTUM- METRALHADORAS, CÃES E CINCO DELEGADOS, TUDO EM NOME DA ORDEM”

1972- EM: “MUTUM- POLÍCIA OCUPA A CIDADE DE MADRUGADA E FECHA O CERCO CONTRA O BANDITISMO”

Repórteres policiais que fizeram a cobertura: Fernando Zuba, Ricardo Menezes e o fotógrafo Alvimar de Freitas. 

Depoimento de Antônio Orfeu Braúna sobre a OPERAÇÃO MUTUM

"Meu muito querido companheiro e amigo, Antônio Carlos Faria.

Sem dúvida que não somos imprescindíveis. Mas fomos, somos e seremos sempre comprometidos com o nosso ideal de, ao preço da própria vida, lutar e defender a segurança de todos contra a criminalidade. Afinal, somos policiais. E policial verdadeiro não tem outro objetivo ou adjetivo. Os interesses pessoais existem. Mas creio que o ideal e o compromisso é que prevalecerão. E é preciso ser testemunhados e ditos, como você faz. Aliás, a gente não faz polícia para, depois, escrever um texto. A gente faz polícia, porque faz polícia. Depois, restam as lembranças e as lacunas da memória, que você foi remexer e que iam se esvaindo com o tempo.

Com sua permissão, gostaria de registrar alguns aspectos que, de alguma forma, se relacionam com a chamada Operação Mutum, que é o tema.

1. Os “Anos 70”, do início de seu texto, registram dois marcos importantes na visão policial. Prevaleciam os métodos, vindos da revolução de 64 e aprendidos, anteriormente, com o nome de Defesa da Segurança Nacional e, depois, utilizados com a acepção de segurança pública, onde se situa a chamada Operação Mutum e outras atividades policiais mais direcionadas ao combate da criminalidade dita comum. No País inteiro, mesmo que os objetivos fossem diversos, a tradução disto, para o povo (principalmente no interior) chamava-se DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). A instituição e o nome Polícia Civil foram absorvidos pela sigla DOPS. Aqui, entre os mineiros, o nome mais representativo do sistema vigente era o do delegado Thacyr Omar Menezes Sia. O “China”, que tivemos oportunidade de conhecer e, de algum modo, trabalhar por muitos anos. O apelido era atribuído aos ancestrais, que seriam chineses. Profissional de polícia política de indiscutível competência operacional – com excelentes equipes. Mas, tinha um outro, não operacional e descendente de israelitas, David Hazan, que também tivemos a sorte de conhecer pessoalmente. Inteligência e disciplina profissionais raríssimas. Sabia dos deveres que haveria de cumprir nas circunstâncias da época. Mas, nunca perdia o foco do papel da polícia na sociedade. Era ele o chefe do DOPS. O Cabeça (com “C” maiúsculo), que cumpria e administrava as funções, buscando reduzir, ao máximo, os prejuízos resultantes das ações. A sociedade e a policia, naqueles tempos, eram “castas” distintas e, em momentos, adversárias.

2. De outro lado, como você diz de outro jeito, com a extinção da Guarda Civil e a inexperiência da Polícia Militar para a repressão dos bandidos e crimes, que aumentavam cada vez mais nos grandes centros, outros grandes policiais da época, chefiando Unidades Operacionais de polícia comum ou não política, deram início às atividades mais ostensivas da Polícia Civil nas ruas. Valiam-se da experiência da Guarda Civil e das atividades já exercida por Delegacias Especializadas, como a Furtos e Roubos e a Vadiagem. Aproveitaram-se, sem dúvida, das circunstâncias da época e, principalmente, daqueles que ocupavam o cargo de Secretário de Segurança Pública - coronéis reformados do Exército. Assim é que surgiram as chamadas rondas especializadas compostas por grupos não muito numerosos de policiais civis. Delegados, investigadores e escrivães escolhidos a dedo, de comprovada competência profissional no exercício da polícia judiciária e no combate homem a homem em situações extremas, se necessário. Tudo teve início no DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais) de São Paulo, com a RUDI (Rondas Unificadas do Departamento de Investigações). Pouco tempo depois, aqui em Belo Horizonte, surgiu a REDI (Rondas Especializadas do Departamento de Investigações), criada pelo delegado Ignácio Gabriel Prata Neto, então chefe do nosso DI, da Lagoinha, e um dos policiais civis mais completos que conheço até hoje. E você sabe que, naquele tempo, existiam muitos outros, cujos nomes não citarei, para não cair nas armadilhas da memória. Mas, guardo-os, nomes e pessoas, indeléveis no meu coração. Como gostamos e era o costume, todos tinham (ou temos ainda temos) apelidos. O do Dr. Prata é “Cigano”, devido as suas características físicas – moreno, alto, bonito, sedutor, postura ereta, jeito manso no falar, bigodes e cabelos “negros, com as asas da Graúna”, amigo até não mais poder. Esse meu chefe, que fraternalmente amo, está vivo ainda, com todas as características e do mesmo jeito. Os bigodes e os cabelos estão azuis escuros. Deve ser coisas do tempo, que faz as cores. Ele vai me matar. Dito isto, lá vai meu depoimento (“intimado e ameaçado”), ou retalhos do que a memória deixou guardada sobre a Operação Mutum.

3. Como acima eu disse, o tempo apaga muita coisa de nossa memória. Não lembro de alguns detalhes e nomes de companheiros que estiveram na Operação Mutum que, como você disse, ocorreu em finais de 1972, em razão do assassinato do prefeito Gentil Caldeira. Efetivamente, não participei de qualquer planejamento. Afinal, naquele tempo eu havia acabado de chegar a Belo Horizonte e era delegado classe III, chefiando a REDI, com o saudoso delegado e amigo Jorge Augusto Travassos. Nessa condição fui designado uma espécie de delegado de capturas, uma vez que de todos os policiais civis, eu era aquele que mais conhecia Mutum e seu povo, além de grande parte do Vale do Rio Doce, ou seja, de Conselheiro Pena até a divisa do Espírito Santo, onde agiam os pistoleiros. Fui o primeiro delegado de carreira de Aimorés, com exercício estendido a toda aquela região. O mais próximo companheiro, amigo e colega de turma, era Jacy de Abreu, que estava em Manhuaçu e raramente a gente se via. No Aimorés, além de mim, havia apenas Newton Cerqueira, vindo de Lajinha do Chalé e que se mostrou grande policial, além de escrivão que era, e excelente amigo e companheiro das horas mais difíceis. Conhecia a região, os homens e tudo o mais. Assim, me ensinou o que eu precisava aprender. Na Operação Mutum objetivava principalmente prender aqueles envolvidos com a pistolagem (mandantes, intermediários e executores) e estabelecer um clima de paz na cidade. Os demais delegados eram Dr. Thacyr que, se não me engano, chefiava a COSEG (Coordenação Geral de Segurança), recentemente criada; Dr. Prata Neto, então Chefe do DI e comandante de operações; o velho e saudoso Dr. Luigi de Oliveira Freitas, encarregado da formalização de inquéritos medidas de ordem administrativas como, entre outras, expedição de salvo conduto e problemas de trânsito; e, Dr. Ediraldo Brandão que, na época, era Coordenador de Informações da COSEG, com funções relativas à sua especialidade e contatos com as autoridades locais. E eu, aquele de menor grau hierárquico que, repito, era encarregado, com minha equipe, das capturas. Jamais mexi com trânsito naquela Operação. A informação que lhe deram é falsa. Gozação, por certo, daqueles que sabem que em matéria de trânsito e suas papeladas até hoje sou semi-analfabeto.

4. Não consigo lembrar que o velho companheiro Airton Garcia tenha trabalhado na Operação Mutum. Era muita gente e cada delegado, com sua equipe, se encarregava da função que lhe foi determinada ainda aqui em Belo Horizonte, antes de sairmos em comboio de viaturas, no início da noite, em direção a Mutum, pela rodovia BR 262, evitando as estradas de terra. Lembro-me, todavia, do então Major PM Vivaldo Leite de Brito, o “Baiano”, grande policial que se tornou meu amigo até falecer, recentemente, no posto de Coronel. Na época era subcomandante do Batalhão de Manhuaçu. O Comandante era o Coronel Xavier, outro bom profissional de polícia que, se vivo estiver, mora em Governador Valadares. Vivaldo “Baiano”, com seus homens da PMMG, por volta da meia-noite, fez o cerco à cidade ainda antes da gente chegar e lá permaneceu até o final da Operação. Um detalhe:- cerco para ele era cerco mesmo. Ninguém saia se não tivesse salvo conduto. Caboclo danado de bom, esse “Baiano”. Também ele comandava o policiamento ostensivo fardado e, para nos entreter a todos, inclusive da população, ainda levou a banda de música do Batalhão. Não lembro o nome do maestro, mas filho de músico e músico que sou, trago vivo na memória a música que a banda nos acordava todas as manhas – “O Despertar da Montanha” (um tango antigo adaptado para o ritmo de marcha, segundo o multi e excelente músico Hélio Pereira), que nos fazia levantar com o ânimo de um leão bravio. Entre os grandes policiais de todos os níveis, que nos acompanhavam, não posso esquecer dos competentíssimos escrivães (na época), Altair Siqueira, hoje delegado, e José Fernandes Mota, agora falecido. Um outro, que muito nos ajudou, foi o Capitão Silveira que, na ocasião, era o Delegado Especial de Mutum e não participava diretamente da Operação, porque nossa Chefia decidiu não utilizar os policiais daquela área, que continuavam com suas funções normais. Além do mais, era preciso preservá-los distante das coisas que iriam acontecer... e foram muitas coisas. O promotor de Justiça da Comarca de Mutum era o hoje Desembargador aposentado Biazutti. Naquele tempo promotor de Justiça não tinha as manias de ser Delegado de Polícia, como agora. O Dr. Biazutti, com o Juiz de Direito da Comarca (não lembro do nome), nos ajudou bastante. Eu já o conhecia de antes. Mas, o contato com ele e com o Juiz era da competência do velho mestre Dr. Luigi. Dali é que saiam os mandados de busca e apreensão e mandados de prisão, às vezes antes e às vezes depois da ordem judicial. Detalhes pequenos que acho que eles só souberam muito depois.

5. Para terminar e sem repetir as coisas que você já disse, vou contar algumas historinhas. Conheci Mutum ainda quando eu era delegado de nossa Aimorés, terra onde você nasceu. Na mesma época, conheci também, pessoalmente, o prefeito Gentil Caldeira, numa viagem de trem, da Vale do Rio Doce, de Aimorés para Belo Horizonte. Estavam ele, Toninho Galvão, prefeito de Aimorés, e o prefeito de Resplendor (acho), Hugo Campos, que depois se elegeu deputado estadual. A viagem era longa e, já que chegaríamos à noite em BH, fomos para o carro restaurante bebericar alguma coisa e bater papo. Seriam poucos meses antes do assassinato e, sem dúvida, nem ele, nem nós tínhamos a menor ideia do que iria acontecer. O assunto sequer foi ventilado e todos sabiam que eu era delegado. Encontrei-o, depois, lá mesmo em Mutum, aonde eu ia regularmente. Imagine: para implantar e difundir um movimento católico, já implantado em Aimorés, com a ajuda do Padre Pedro não sei das quantas, um jovem holandês daquela igreja perto do parque de exposições, e mais dez outros homens da melhor representatividade da sociedade aimoreense. Éramos doze cristãos trabalhando para reduzir as grandes diferenças sociais. Sem alardes. Com testemunhos de vida. E conseguimos alguma coisa. Quando sai de lá, tínhamos uma horta comunitária produtiva, uma oficina de costuras, uma farmacinha, conseguida com remédios dos dois hospitais. Existia um médico chamado Wilson, se não me engano, que era doido por galos de briga. Eu me aproveitava disso e arrancava dele tudo o que era de amostras grátis. Criamos um jornal mensal chamado “O Reflexo”, com colunista social (um gay, da maior competência) e tudo o mais, impresso de graça na única gráfica da cidade, ali na avenida Alfredo Martins da Costa (acho), mesmo nome do saudoso delegado “Fiduca”. E já difundíamos, com nossas famílias, o hábito de visitar, nos finais de semana, os mais pobres e necessitados da cidade, para participarem de tudo, sem a necessidade das esmolas. O negócio era sensacional e me valeu até uma ficha de comunista, que ainda deverá existir nos “arquivos secretos e perdidos” do pessoal de informação.

6. Era com esse objetivo que eu visitava Mutum e ia conhecendo as grandes lideranças católicas da cidade, a partir do vigário, cujo nome já nem sei. Nessa condição, no meio da Operação Mutum, para também gerar a confiança da população, eu frequentava as missas aos domingos. Na vã esperança de converter os “hereges” policiais da Operação, eu os convidava para irem comigo. Só um ia – o velho e saudoso amigo, escrivão Mota (José Fernandes). Emérito gozador, ia por pura sacanagem. Sabia rezar, certamente. Mas, ficava mesmo era me observando. Eu comungava e ele olhava. Depois, contava tudo pro resto da turma. Toda hora que ele me via, principalmente depois de alguma operação policial mais arrojada, e fdp gritava:- Viva Jesus. O muito querido sacana deve estar no céu. Mas, garanto, tomou um tremendo chá de cadeira, para explicar pra São Pedro as blasfêmias que irrogou contra este, à sua maneira, seguidor do Cristo, filho de São Jorge (Ogum) e fã de São Paulo, aquele que caiu do cavalo, ambos policiais de suas épocas. Com essas condições, enquanto o Dr. Ediraldo Brandão cuidava, competentemente, da parte política e social da localidade, eu, nas noites, cuidava do moral da tropa, como dizem os militares. Aí o companheiro era o inoxidável santo Altair Siqueira. Pertinho do nosso hotel, numa esquina da praça principal de Mutum, havia um restaurante dançante, sério, onde as moças e rapazes de Mutum se reuniam todas as noites. Era atrás da pensão onde a gente almoçava.

O Altair, lógico, descobriu. E lá a gente ia. Afinal, eu conhecia e era conhecido da moçada. Apresentei todos ao povo que me conhecia. Esse querido e culto crioulo, de estilo machadiano, descobriu até cachoeiras da região. Dessas coisas, se você quiser pedir, talvez ele fale.

Sobre o pistoleiro Lamarca, o João Reis, “Sete Bóias”, saberá contar muito melhor. Já nem sei o primeiro nome do homem. Mas, era o bicho. E soubemos que ele, “premiado”, estava no Espírito Santo, cidade ou bairro perto de Vitória. Acho que Serra. Nosso pessoal de informação babava. O homem era irmão do Capitão Lamarca. Nós, chamados “pés de poeira”, queríamos era o homem. O “cão” e temido pistoleiro, sem ideologia política, mas de boa linhagem.

O chefe Prata Neto, que sabe e sempre soube “lavrar o eito da formosura” de seus policiais. (A frase, grifada, é do poeta Carlos Roberto Lacerda, amigo e colega de turma da Faculdade de Direito de Uberaba). Aí mandou a mim, e mais três outros homens, para capturar o dito cujo, de pré-nome que nem sei. Serra é uma espécie de Venda Nova e, do homem, o que a gente sabia era que era um exímio funileiro. “Sete Bóias” logo descobriu o lugar que ele frequentava. À noite, lá estávamos nós. E João Reis, na sua inteligência privilegiada, sentiu o homem, na hora que ele chegou. E rolou o papo certo, dentro do tema. Convenceu o tal Lamarca a nos acompanhar. Era Lamarca, “Sete Bóias” e eu andando. Lá na frente, nossa viatura, caracterizada, e mais dois homens, que me penitencio por não guardar seus nomes. Tudo pronto. Íamos nós. Perto da viatura, gritei:- Reis, pegue o homem, eu, à esquerda, tiro as armas. Foi o dito e o feito. E saímos, à toda, rumo a Minas. A Polícia do Espírito Santo nem sabia. Nessas horas a gente não deseja tiros, que poderão vir. O tal Lamarca foi entregue, ileso, ao nosso chefe, Dr. Prata Neto.

Pronto. Mas, apenas para cutucar a “mansidão” do mais privilegiado e culto policial de informação que conheço – Dr. Ediraldo Brandão. Resumindo, fui escalado para a captura de um pistoleiro, que não é qualquer bandido. Ele desejou ir. Dr. Thacyr mandou. Eu ponderei ao Dr. Prata que ele não fosse. A coisa era braba. Eu nunca tinha ouvido falar, como até hoje, que ele fosse homem de operação e, sendo meu superior hierárquico, iria ele no comando. Tá doido, moço! Dr. Ediraldo, afinal, não foi. Ele, no seu velho e conhecido estilo, vai me xingar. Mas, foi isso mesmo."
Antonio Orfeu Braúna

1970. 11º Distrito Policial.

Criado à rua Rodrigues Caldas na década de 70 para atender a região sul da capital mineira. Na foto, o delegado titular, Fábio Alvim Moreira Machado, subinspetor José Afonso Drumond e investigadores José Ambrósio Martins, Joaquim Lopes Ribeiro, Antonio Oliveira Campos, Inner Soares de Souza, Nelson Gondim, fiscal Onofre Batista e José Magalhães de Barros (Juiz de Paz).

O Cruzeiro 1971.pelé.dana De Teffé.garimpo.jõ Sousa Lima

 

CHACINA DE IPIAÇU

          Crime que abalou os brasileiros na década de 70, pela violência contra as vítimas, um casal de ricos fazendeiros do município mineiro de Ipiaçu e sua filha grávida. O crime é retratado de forma competente pela delegada Maria de Lourdes Camilli, que fez uma pesquisa científica sobre as circunstancias, fases do Inquérito Policial. até a fase final processual. A fonte de pesquisa foi o Processo de número 2322/1972, arquivado no Fórum de Ituiutaba.

"Triplo homicídio, conhecido como "Chacina de Ipiaçú", ocorrido na madrugada de 23 de agosto de 1972, na sede da fazenda Pontal, no município de Ipiaçu, chamando a atenção em âmbito nacional, da imprensa escrita, falada e televisada, em face da brutalidade da ação delituosa, das idoneidades daqueles que pereceram e das circunstancias e /ou motivos que impulsionaram o autor a vitimar fatalmente e a golpes de marretas o seu pai, mãe e única irmã gestante, no sexto mês de gravidez. Em tempo recorde para uma época de total carência de recursos logísticos e tecnológicos, os policiais civis de Ituiutaba, com a colaboração de policiais civis do antigo DOPS, de Belo Horizonte, elucidaram o fatídico episódio, culminando com a prisão do seu responsável.

As vítimas: José Franco Vilarinho, conhecido como Euzébio Vilarinho, um dos mais ricos fazendeiros daquela região, sua esposa Joana Vieira Vilarinho e a filha Janete Vilarinho Pinheiro.

Os policiais que trabalharam nas investigações:

Delegado Walter Menezes Sales e sua equipe de Ituiutaba: Inspetor Vicente Vieira dos Santos, detetives José Correia, Levi Ferreira Guimarães, Noel Felipe Santiago e o escrivão Ítalo Terêncio José.

De Uberlandia vieram os peritos Silenio José Ribeiro e José Constantino Ferreira.

O DOPS de Belo Horizonte enviou o Inspetor Lúcio Scoralick e os detetives Heraldo Alves da Rocha e Antonio Duarte de Souza. Pelo Departamento de Polícia Técnica, o Delegado Cid Nelson Safe Silveira e o perito Amaro Sales Mariano da Rocha.

                                                       Detetive Scoralick      Delegado Santos Moreira

Consta dos autos do inquérito policial que o vaqueiro João Morais Pessoa encontrou os corpos das vítimas, por volta das 6:30 da manhã e à cavalo, se dirigiu até a cidade de Ipiaçu, para solicitar a ajuda do farmaceutico Wander Alves Paranaíba (proprietário do único telefone da cidade)...que trataram de acionar a Polícia Civil de Ituiutaba e de espalharem aquela triste notícia que se difundiu, feito rastilho de pólvora, por toda a região do pontal do Triangulo Mineiro.
 

Os policiais civis ao chegarem ao local da chacina verificaram que as portas e janelas não haviam sido arrombadas e ao lado das vítimas havia uma carteira com dinheiro, o cofre também não havia sido arrombado e os relógios e as alianças não foram subtraídos. No chão, em meio às poças de sangue impressões de pés descalços que desenhavam o trajeto do criminoso quando caminhou no interior da casa. As necrópsias foram realizadas pelos médicos legistas Renato Lansac Patrão e José Claudionor Franco que atestaram as mortes por traumatismos cranianos, com perda de massa encefálica.

Pela falta de peritos em Ituiutaba, um fotógrafo de Capinópolis foi convocado pela polícia para registrar a cena do crime. No caso ocorreu ainda a influencia política por parte de Jorge Zacharias Junqueira, tio da esposa do Governador Rondon Pacheco e vizinho da fazenda Pontal, responsável pela designação dos policiais do DOPS para apoio às investigações. A perícia moldou em gesso a marca deixada pelos rastros dos pneus do criminoso, que coincidiu com os pneus do Corcel 1972, visto com José Divino Vilarinho, na noite anterior em Ituiutaba e na manhã do crime em um posto de gasolina onde deixara para lavar e encerar, porque estava sujo de poeira e terra vermelha.

Na mesma noite após a descoberta dos corpos, o delegado Walter ouviu testemunhas que nortearam as investigações e apontavam que a família Vilarinho havia sido exterminada pelo próprio filho e irmão - José Divino Vilarinho. Várias testemunhas o descreveram como um rapaz rebelde, preguiçoso, fanfarrão, perdulário, um verdadeiro playboy, que exigia dos pais, muito dinheiro e carros da moda para manter-se cercado de garotas. Apurou-se que dias antes dos crimes, comentara com algumas pessoas ter recebido um telefonema com ameaças de morte contra seu pai. Comentou com um de seus primos que, se sua família toda morresse, seria ele, "Zé Gordinho", o único herdeiro da fortuna dos Vilarinho. Dois dias antes das mortes, "Zé Gordinho" esteve com seu pai para lhe pedir a quantia de quinze mil cruzeiros destinados a quitar a dívida de um cheque sem fundos utilizado para a compra de um Ford Galáxie 1967, adquirido à revelia dos pais. Várias pessoas assistiram a discussão entre filho e pai, que acabou assumindo a dívida diante da insistência de "Zé Gordinho". Descobriu-se ainda, através de depoimentos que no dia 23 de agosto de 1972, "Zé Gordinho" trocou seu Galáxie pelo Ford Corcel de seu amigo Jorge Calil, sob a alegação de que sairia com uma mulher casada. No dia seguinte, devolveu o carro, por volta das 6:30 horas da manhã, no posto de gasolina do Omar. O carro estava todo sujo de terra. De lá, junto com Jorge Calil e outro amigo se dirigiram para uma pescaria no "Poção de Capinopólis". Quando se encontravam no meio do rio, foram procurá-lo para dar notícia das mortes dos seus pais e de sua irmã. Segundo consta dos autos, sua frieza demonstrada diante de tão triste notícia, causou espanto aos presentes.

Em 29 de agosto de 1972, José Divino Vilarinho confessou a autoria dos três homicídios a golpes de marreta, reconstituindo-o, com riqueza de detalhes. A violência do golpe desferido em sua irmã Janete, fez a marreta se desprender do cabo, o que o obrigou a caminhar no escuro sobre o sangue que se esparramava pelo chão. com o início do processo foi travada uma ferrenha batalha processual, mesclada de peripécias, artimanhas vis, acusações de tortura e corrupções denunciadas pelos diversos jornais de nosso país, provocando outras investigações por parte das corregedorias de polícia e de justiça.

Foram investigados o carcereiro João Batista Guimarães e os policiais militares que faziam a guarda da cadeia de Ituiutaba por corrupção. Também o juiz José Wilke Moreira Assir foi afastado do quadro ativo, demonstrando que a força da fortuna de "Zé Gordinho"imperava."

Os melhores advogados criminalistas da época foram contratados pelo assassino covarde. Do outro lado, também, grandes nomes na acusação. O cenário para um grande espetáculo estava montado.

"Zé Gordinho" contou com o auxílio dos advogados de defesa Heleno Cláudio Fragoso, Fernando Fragoso, Hélio Benício de Paiva, Marcelo Leonardo, Lincoln Ávila Borges, Sizenando R. Barros Filho, Gerson Abrão e Luiz Carlos da Silva. A promotoria contou com o auxílio dos advogados Winston Peres Drumond, Lajosé Alves Godinho, José dos Santos Villela Júnior e Ariosvaldo Campos Pires. Foram interpostos diversos recursos de apelação, "habeas corpus", postulação de exame de sanidade mental, desaforamentos da praça de julgamento, embargos infringentes, indultos de natal, dentre outros.

O juízo da 1ª Vara Criminal de Ituiutaba determinou em 1974 a internação na Casa de Saúde Santa Clara para exame de sanidade mental. O delegado Santos Moreira da Silva, Corregedor Geral, determinou investigações para apuração de notícias vinculadas por jornais registrando que "Zé Gordinho" não permanecia internado e frequentava acintosamente dia ou à noite, os bares e restaurantes mais badalados do alto da Avenida Afonso Pena e Pampulha, na capital, na condução de motocicletas, ora participando de rachas, dirigindo veículos potentes. Tal situação provocou a remoção de "Zé Gordinho" para a cadeia de Ituiutaba. No primeiro julgamento José Divino Vilarinho foi condenado a sessenta e seis anos de reclusão por sete votos a zero".

Em 1978, ocorre uma reviravolta no caso, quando o advogado Heleno Cláudio Fragoso arguiu que o verdadeiro assassinos da família Vilarinho seria Luiz Carlos Gonzales, recluso da Penitenciária de Carandiru, em São Paulo. Teria como co-autor outro detento do mesmo estabelecimento penal, Renato Santos Pereira. O crime teria sido confessado ao detetive da polícia mineira, Antonio Durante. Com essas informações, o juiz José Wilke Moreira Assir colocou "Zé Gordinho" em liberdade. O Secretário de Segurança Washington Flores determinou aos delegados Mário Zucato Filho, regional de Uberaba e Paulo Sérgio Schettino da Superintendência de Polícia Judiciária e Correições que investigassem a história do policial Antonio Durante e outra que envolvia o mesmo policial e seu companheiro Diógenes Morilo da Silva na facilitação de fuga, mediante suborno, do ladrão de carros José Sebastião Borges, o "Zé Amado". Por "coincidência", esse marginal era parceiro de crime de Luiz Carlos Gonzales. O ardil foi descoberto através dos exames periciais dos grafismos das três correspondências que foram postadas para as delegacias de Sacramento e Uberaba, restando a Luiz Carlos Gonzales confessar que lhe fora proposto o pagamento de duzentos mil cruzeiros para que ele sustentasse a farsa com o fim de inocentar "Zé Gordinho"e cinquenta mil cruzeiros para seu amigo Renato.

          José Vilarinho foi condenado e teve como pena definitiva, vinte e cinco anos de reclusão, dos quais cumpriu cerca de dez, sendo liberado em 1984 por indulto de natal.

                                                                                                   
1973 - A Pantera de Minas
  

http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/historia/decadas/416-angela-diniz-x-doca-street-o-juri

                                                                                          
        Ângela Diniz, a socialite mineira, foi vítima de assassinato em uma praia de Búzios, pelo seu amante, o playboy Doca Street, crime que causou repercussão nacional e protestos feministas pela teatralidade dos julgamentos e uma absolvição por defesa da honra. Antes, porém, em Junho de 1993, a “Pantera de Minas”, como era chamada, se envolveu em outro crime de morte que causou comoção e repercussão na sociedade mineira, desta feita como partícipe de assassinato. Porém, como a vítima era um “reles” rondante de sua mansão, o processo se arrastou por anos na capital. Da revista “Notícias e Polícia”, de 1975, encontramos uma reportagem que descreve os fatos que envolveram o crime:

“A Pantera ainda está solta”

“A Pantera Negra da sociedade mineira, Ângela Diniz, ainda não foi punida pela justiça depois que se envolveu no rumoroso assassinato do seu ex-rondante José Avelino que foi morto com um tiro no peito na varanda de sua mansão, no luxuoso bairro Gutierrez. Ângela Diniz fixou residência no Rio de Janeiro e ainda tem sido notícia, ocupando lugar nas colunas sociais e até convite para fazer cinema ela recebeu recentemente. Sobre o destino do incorporador Tuca Mendes, que era amante da “Pantera Negra, ninguém sabe.

Processo parado

       O processo em que figura como indiciado, Tuca Mendes, e como co-autora do crime do ex-rondante a própria Ângela Diniz, arrasta-se lentamente na 1ª Vara de Execuções Criminais, e muito pouca gente toca no assunto, principalmente as autoridades judiciárias. O que a polícia não conseguiu apurar até hoje, é o encontro de carrapicho no lençol branco da cama da “Pantera Negra”. Também vários carrapichos foram encontrados na perna direita do ex-rondante José Avelino, cujo corpo estava caído na varanda da mansão, e todas as portas trancadas por dentro.

O Crime

       Em meados de junho de 73, a Delegacia de Plantão recebia comunicado da torre de comunicações da Rádio Patrulha, sobre o encontro de um cadáver numa luxuosa residência da Rua Oscar Trompowisky, no Gutierrez. Imediatamente o delegado de plantão mobilizou uma equipe e seguiu para o local, acompanhados de peritos da Polícia Técnica. A residência era da “Pantera Negra” Ângela Diniz, que interrogada negou o crime. No mesmo dia a polícia localizou o amante de Ângela Diniz, o incorporador Tuca Mendes, que, de início negou o crime. Novos interrogatórios foram feitos quando os policiais apuraram que quem havia dado o tiro no ex-rondante José Avelino, fora Tuca Mendes. A “Pantera Negra” continuou negando que tivesse mandado o amante matar o seu empregado. O delegado Luigi de Oliveira reuniu provas materiais, preparou o relatório e enviou o inquérito à justiça, apontando como indiciado Tuca Mendes e como co-autora Ângela Diniz..

"Belo Horizonte, Minas Gerais. 1971. Depois de passar dez anos casada com o engenheiro Milton Villas Boas, com quem teve três filhos, Ângela Diniz decidiu pedir a separação. Linda e amante da badalação social, ela queria mais do que a vida que levava. Mais festas, mais jantares, mais reuniões sociais. Com dinheiro suficiente para manter o alto padrão de vida, Ângela, “A Pantera de Minas”, começou a aparecer cada vez mais nas colunas sociais. Separada, se tornou amante do empreiteiro Tuca Mendes. Em junho de 73, um crime expôs o relacionamento clandestino: o caseiro de Ângela foi morto com três tiros e Tuca Mendes assumiu a autoria do crime, embora Ângela tenha se apresentado inicialmente como autora do disparo. Segundo ele, o caseiro, armado com uma faca, teria tentado assediar Ângela. Depois do escândalo, ela decidiu deixar Belo Horizonte e se mudou para o Rio de Janeiro. Nessa mesma época, se envolveu ainda em outros dois crimes. Primeiro tentou sequestrar os filhos, que estavam sob a guarda do ex-marido. Depois, foi flagrada no Aeroporto Internacional do Rio com maconha. Em 1976, Ângela se apaixonou por Raul Fernandes do Amaral Street, o Doca Street. Ela o conheceu durante uma festa na casa da mulher de Doca. Três meses depois de conhecer Ângela, Doca mudou-se para o apartamento dela e assumiu o romance. Em 30 de dezembro do mesmo ano, dia do crime, o casal estava em Búzios para passar o réveillon. Segundo amigos de Ângela, a paixão dela por Doca já não existia mais. Depois de passar toda a tarde bebendo, Ângela, completamente embriagada, discutiu violentamente com Doca. Durante a briga, disse que não queria mais viver com ele, segundo afirmou Doca na época. Doca então foi embora. Mas voltou. E implorou para que Ângela ficasse com ele. Ângela concordou. Mas, ainda segundo Doca, impôs uma condição: ele teria que aceitar relacionamentos dela com outros homens. Nesse instante, Doca sacou uma arma e matou Ângela com quatro tiros. Depois de passar por dois julgamentos, ele acabou condenado a 15 anos de prisão em regime fechado." crimesfamosos.multiply.com. 1974/1975 

 

As reportagens a seguir referem-se aos crimes de Angela Diniz e de Angueretá. O delegado Murilo Junqueira e o Inspetor Dante aparecem à frente do segundo caso, à procura das ossadas de vítimas na região de Sete Lagoas.

 

1975-AS CISTERNAS DE ANGUERETÁ

            Foi uma década marcada por grandes apurações de crimes violentos como a “Chacina de Angueretá”, quando 19 pessoas foram assassinadas e jogadas dentro de uma cisterna na Fazenda Porto Mesquita, na região de Curvelo. As investigações ficaram a cargo da Delegacia de Homicídios, sob a presidência do delegado Murilo Junqueira, inspetor Dante, subinspetor Silvestre e equipe. A cidade de Angueretá ficou conhecida nacionalmente quando as investigações foram concluídas com o encontro dos corpos e a descoberta dos autores. Tratava-se de um grupo de extermínio comandado pelo conhecido Cabo Madureira e os soldados Chaves e Castro. Segundo as apurações, a maioria das vítimas eram criminosos da região de Sete Lagoas, onde os militares serviam. Eram levados para Angueretá, onde eram executados e jogados no interior de uma cisterna. Algumas vítimas foram retiradas das celas da cadeia de Sete Lagoas e levados para serem executados. Dentre as ossadas e vítimas identificadas estavam José Maria dos Santos, “Pedrão”, “Goiano”, o domador de cavalos José Prainha da Silva, dentre vários outros. Por fatalidade, o menor Ingran Alberto Wiegrats, foi conduzido ao xadrez a pedido de sua mãe, porque estava bebendo muito. Também foi retirado da cela e conduzido para a boca da cisterna, onde foi assassinado. 

       Segundo os policiais civis, que estiveram no local para perícia e retirada dos cadáveres, a cena era dantesca. A principal cisterna onde os corpos foram jogados após as mortes era a “Cascalheira”, de aproximadamente, 18 metros de profundidade. O fazendeiro José Luiz de Figueiredo, daquela região, foi identificado como mandante dos crimes. A razão para os crimes era a paranoia que o fazendeiro tinha em relação a ser assassinado por pistoleiros. Todas as pessoas que rondavam sua fazenda eram suspeitos e por isso contratou os militares José Henrique Madureira, cabo, Antonio Pereira Chaves e José de Oliveira Castro, soldados e o escrivão José Geraldo do Espírito Santo. Também faziam parte do staf de “proteção” ao fazendeiro os delegados municipais de Angueretá e Papagaios, Feliciano Duarte Maciel e Miguel Duarte Maciel, além dos irmãos Cléber e Elmar de Oliveira Machado, sobrinhos do mandante. Tudo começou por volta de 1968, quando José Luiz de Figueiredo matou “Lili Cachoeira” e a família teria contratado pistoleiros para vingá-lo. Alguns homens foram vistos nas proximidades da fazenda e presos pelo delegado municipal de Papagaio, José Miguel Duarte Maciel, o “Neném da Cecília”. Levados à presença do fazendeiro este determinou e assistiu as execuções sumárias. A partir daí a matança se intensificou, tendo a competente investigação resultado na identificação de pelo menos 19 vítimas e tantas outras que não foram encontradas.


ORLANDO SABINO, "O MONSTRO DO TRIANGULO"

A Prisão do Monstro

         Uma série de crimes bárbaros teve seu início no princípio dos anos 70, na região do triângulo mineiro, onde pessoas eram barbaramente assassinadas por um serial killer, causando pânico à população local. Os assassinatos, somando mais de uma dezena, tinham como vítimas preferenciais, casais de velhos que residiam em fazendas, geralmente sozinhos. Algumas velhas, depois de assassinadas eram estupradas pelo criminoso necrófilo. Policiais da Delegacia de Segurança Pessoal (Homicídios) foram enviados para diligencias em Uberlândia, Ituiutaba, Canópolis, Capinópolis e outras cidades próximas, onde os crimes estavam ocorrendo. A equipe era chefiada pelo delegado Edber Pereira, escrivão Altair Siqueira e os detetives Alberto Henrique, o “Alberto Bolacha” e Aírton Freire. Como se tratava de um maníaco, com comportamento totalmente imprevisível, a diligencia demandou tempo com muitas jornadas a cavalo na zona rural, transposição de rios em balsas e caminhadas causticantes por toda aquela região. Por se tratar de um desequilibrado que só cometia seus crimes à noite e sempre refugiando pelo meio das matas, a caçada era difícil e todas as pistas deviam ser verificadas. Onde quer que fosse.

          Depois de muito sofrimento por parte dos policiais encarregados da missão, pois já estavam desnutridos e cansados, conseguiram localizar o suspeito Orlando Sabino, que não dizia coisa com coisa em relação aos crimes. Os policiais perceberam que Altair Siqueira, durante seu período com o maníaco, ganhou sua simpatia graças ao vício incontrolável do criminoso por doces. O preso e Altair Siqueira foram algemados juntos e sempre que tinha oportunidade, o policial lhe dava de presente, pedaços de rapadura. Tal cumplicidade rendeu a confissão de detalhes de crimes que só eram confidenciados para o “amigo” escrivão, assim como possibilitou a apreensão de instrumentos e objetos vinculados aos assassinatos. Um belo trabalho de investigação policial que possibilitou a retirada de circulação de um dos criminosos mais perigosos que se têm notícias nos últimos tempos. A Justiça do triangulo determinou, à época, a internação de Orlando Sabino no Hospital Psiquiátrico Raul Soares, onde morreu. Outras informações no artigo Bandidos, deste site.




MINAS E A DITADURA

       A Polícia Civil de Minas, dentro das atribuições que lhes foram impostas pelo sistema ditatorial, também participou ativamente na repressão aos subversivos e aparelhos de indivíduos que faziam oposição ao governo através da luta armada, que, diga-se de passagem, era sinônimo de assaltos a bancos, atentados a bombas e assassinato de policiais. Em Minas, dois eram os principais órgãos que atuavam diretamente neste seguimento criminoso, o DOPS e a COSEG. O primeiro era a entidade operacional e o segundo, setor de informações e inteligencia. Nos dois casos, policiais militares e das Forças Armadas, através de seus órgãos de inteligencia, participavam das operações de campo junto da Polícia Civil. Inúmeras insurreições eram vistas nas ruas, principalmente mobilizações organizadas por estudantes de direito e trabalhadores. Os demais policiais civis de outras áreas, eram uma espécie de "bucha de canhão", pois eram acionados para conter distúrbios e frequentemente ficavam de prontidão no DOPS, sem saber ao certo o que estavam fazendo, ou iriam fazer. O caso do aparelho estourado no Bairro São Geraldo é um exemplo crasso do despreparo para tal tipo de ações, quando membros do grupo COLINA fuzilaram e mataram dois policiais civis. 

       Abaixo algumas imagens que representam Minas naquele período de turbulências. Na primeira foto, Thacir Menezes e policiais civis no enfrentamento a estudantes na Praça Afonso Arinos. Na segunda, David Hazan, Coronel Vinícius Alves da Cunha, Ediraldo Brandão e um oficial PM no DOPS assistindo um filme sobre os insurgentes. Nas demais fotos, registro de confrontos de rua com a PM. Em um deles, um trabalhador foi morto.

  http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/orgaos-operacionais/296-dops

 

1975. A MORTE DE SANDER

       A morte do detetive Sander, no ano de 1975, causou uma grande repercussão no meio policial pela juventude ceifada, em serviço, do policial civil. Sander era estimado por seus companheiros pela coragem, maneira tranquila e leal no trato com seus colegas. O 5º Distrito Policial, onde Sander trabalhava, ficava acerca de 200 metros do "KILO", na Rua Pouso Alegre e o relacionamento entre os policiais das duas unidades muito fraterno, o que provocou enorme comoção e revolta nas duas delegacias. O jornal Diário da Tarde, de 19/4/1975 (parte da matéria), retrata os momentos desse policial e seus companheiros de lida, naquela que seria sua última jornada policial. "Gang de menores encara polícia e mata detetive".

 

OS FESTIVAIS DE INVERNO

          Plagiando os festivais americanos que apregoavam rock in roll, sexo, drogas e liberdade, a década de 70 em Minas também se inspirou e fez os seus festivais de inverno regados a drogas e o aumento acentuado de um crime, até então de bastidores, sem repercussão ou holofotes, o tráfico. Esses festivais eram porta de entrada para a difusão da mercancia de drogas, o aumento de usuários e a violência dos traficantes, principalmente depois da mudança da legislação com a extinção do artigo 181 por dispositivo mais duro e rigoroso. As drogas químicas, principalmente as farmacológicas, como os xaropes Pambenil, Benadryl, comprimidos como o Optalidon, Mandrix e outros, além da cola de sapateiro eram o frisson dos dependentes de pouco recurso. Ouro Preto e a Serra Verde eram dois locais que se tornaram tradicionais nos invernos. Nestes ambientes a presença de policiais civis era constante, principalmente da recém criada Divisão de Tóxicos e Entorpecentes.

Abaixo: 1976. Festival de Música do Serra Verde. 1977. Zé Resende, Chefe da Guarda Civil em sua despedida. Detetives de BH em serviço no Festival de Inverno de Ouro Preto. 1973. Sílvio de Carvalho, escrivão Justo Gomes e o jornalista Vargas Villaça. Jésus Trindade e Cid Nelson Safe Silveira.

 

1977- O PRIMEIRO GRANDE CONFRONTO ENTRE A POLÍCIA MINEIRA E TRAFICANTES


               O tiroteio que envolveu a morte do detetive Nelson Silva, o “Zé do Pão” pode ser visto no MEMORIAL, mas vale registrar as repercussões que a morte do policial causou, inclusive na mídia, no período que nossa sociedade vivia dias de regime de recessão, mas não estava acostumada com a rotina de traficantes enfrentando a polícia e a morte desses profissionais no cumprimento do dever. A morte do policial trouxe à tona, todo o despreparo da Polícia Civil para o enfrentamento da criminalidade violenta, quando todos os recursos eram direcionados à polícia política.

             A matéria do jornal Estado de Minas, de 13/10/77, com o título “CIDADE ORFÔ expressa com muita propriedade e isenção a dura realidade do policial. A matéria é longa, razão de termos destacado alguns trechos:
     “conheciam sua periculosidade, sabiam que a resistência seria quase certa. Agindo com serenidade, não entraram para matar, dentro do esquema de truculência sempre atribuído à polícia por certos canais da imprensa mineira. Agiram, acima de tudo, no maior respeito à vida alheia, mesmo em se tratando, como já disse, de perigosos malfeitores. E, levaram a pior, lamentavelmente. Nem mesmo algemas para imobilizar os traficantes, esses policiais tinham, na prova da maior precariedade do equipamento da Polícia Civil mineira. ....como tem acontecido ultimamente naqueles referidos canais de nossa imprensa...que poderia afirmar-se que os agentes policiais tiveram o desplante de incomodar em sua “maloca” os pacatos traficantes. ...transformando bandidos perigosos em heróis e agentes policiais em temíveis matadores... Já no primeiro noticiário de um  matutino da capital sobre o caso. Destacou-se, por exemplo “o maior aparato policial que já se viu numa favela de Belo Horizonte”, afirmando-se que o policial menos armado portava um revólver na cintura e uma carabina na mão. Pergunta-se: e era para menos? Ou que além de algemas, faltassem também aos policiais as arma na captura do bando que já havia trucidado um de seus colegas, um transeunte e ferido mais três detetives? Esperava-se o quê? Que levassem flores ao invés de armas? Daqui para frente poderão dizer , seguramente que Nelson foi morto pelos seus próprios companheiros. Pois é sempre a polícia que mata. Bandidos- traficantes de tóxicos e assaltantes- qualificados na matéria como “rapazes” não matam. Estes pacatos rapazes não matam. ...Para eles, o policial é sempre um boneco mecânico, ou um androide do mal, sem pai, mulher ou filhos. E se morre no cumprimento do dever, como morreu Nelson, a morte não passa de uma contingência da profissão. ...a população, por certo, traumatizada com os acontecimentos da terça-feira, já deve ter percebido o jogo sujo que se faz naqueles setores de comunicação com a inversão de fatos e da realidade. ...marcado pelo sangue da tragédia, o cheque de pagamento do agente Cléber de Abreu, internado em estado grave no HPS. Seu salário mensal, líquido a receber: Cr$2.495,00(em cruzeiros) ... Ao pai morto, aos filhos sem pai, de nada adiantará a mais imorredoura gratidão de toda a cidade. Ela não o trará do além. Não aliviará a amargura e a insegurança de toda a vida a que aquelas crianças foram lançadas. Uma cidade órfã, a prevalecer a intenção daqueles que pretendem marginalizar a polícia e endeusar - transformando-os sempre em vítimas - os pacatos rapazes do crime.”
 
                  Apesar de ser uma matéria rara sobre a defesa da polícia no seio de uma sociedade e decorridas quase quatro décadas de sua publicação, merece uma reflexão sobre a sua atualidade.
     

1979-O BANDIDO DA CARTUCHEIRA
                                                                              


 
                                                                    

          Ramiro Matilde Siqueira era um homem comum da pacata cidade de Jaboticatubas, até se tornar uma fera e ganhar notoriedade nacional pelos seus crimes na década de 70. As armas utilizadas na prática de seus crimes eram sempre espingardas cartucheiras usadas para roubar dinheiro, armas e outros bens que encontrava, assim como, na execução cruel de suas vítimas, em sua maioria, fazendeiros desprotegidos. Em razão disso, ganhou a alcunha de “O Bandido da Cartucheira”. Foram vários os latrocínios praticados por este indivíduo, causando verdadeira histeria e paranóia no meio rural, pelo temor dos moradores de se tornarem a próxima vítima. Mesmo na capital, algumas mortes foram atribuídas a ele, quando dos assassinatos do comerciante Ajax Lins de Vasconcelos, na Pampulha e posteriormente o vigia de obra, Geraldo Lopes, no Alto da Avenida Afonso Pena. A delegacia de Furtos e roubos conseguiu prender os assaltantes responsáveis pelos latrocínios em Belo Horizonte, descartando a tese alarmista de alguns órgãos de imprensa. Depois de várias mortes em Minas Gerais, começaram a surgir novas vítimas em Goiânia com as mesmas características do “Bandido da Cartucheira”, ou seja, tiros de cartucheira na região torácica, desferidos por um único criminoso. Famílias inteiras eram chacinadas. Pelo menos duas equipes de policiais civis de Belo Horizonte participaram da caçada ao perigoso assassino, como “Tião Remelexo”, “Zé Maria Zebú, Chic Chic e outros. Depois de muitas investidas em cidades visitadas pelo criminoso e no estado de Goiás, conseguiram sua prisão. Ramiro foi preso em Corumbaíba e transferido para a carceragem a Delegacia de Vigilância Geral. Em 1981 apareceu morto na cela, ao que tudo indica, por ataque cardíaco.

As fotos abaixo registram flagrantes da caça ao bandido e sua prisão, quando recambiado por policiais da "Homicídios".

 

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ramiro_da_Cartucheira

Ramiro Matildes Siqueira foi um ladrão, acusado de assassino, natural de Jaboticatubas - MG

Era considerado um homem pacato, mas ganhou notoriedade na década de 70 pelos seus crimes. Por usar espingardas do tipo cartucheiras ganhou o apelido de Ramiro da Cartucheira. Acusado de 54 crimes, entre assassinatos, estupros e assaltos e, ao invés de usar a famigerada cartucheira matou a pauladas algumas de suas vítimas.

Causou pânico e histeria no meio rural pelos vários latrocínios que cometeu na época. Algumas mortes na capital Mineira chegaram a ser atribuídas a ele, mas logo a polícia prendeu os verdadeiros autores dos assassinatos e perceberam então que a notícias das mortes na época não tinham nada a ver com Ramiro. Na verdade não passavam de mera especulação da imprensa.

Ramiro da Cartucheira já era uma lenda em Minas quando começaram a aparecer novos assassinatos na cidade de Goiânia, todos eles da mesma forma, tiros de cartucheiras no peito. Famílias inteiras foram mortas em algum de seus crimes, até que a polícia mineira começou a caçada ao assassino pelas várias cidades percorridas por ele e conseguiram prendê-lo em Corumbaíba - GO.

Curiosamente, um agente do senso do IBGE chegou até um casebre e foi recebido a tiros, de Ramiro da Cartucheira. O mesmo agente do IBGE escapou dos tiros ileso e foi até à delegacia delatar o fato. Daí chegaram até Ramiro.

Na época, o Juiz que o julgou, Dr. Benedito do Prado, tentou interrogá-lo a sós no seu próprio gabinete, perguntando ao acusado se ele era louco ou coisa parecida. Ele logo respondeu: 

"Se ocês quiserem me mandar pro hospital de loucos como fizeram comigo em Betim, eu mato todos os loucos que estiverem lá a pauladas".

No seu julgamento foi muito difícil formar um júri para mandar Ramiro pra cadeia. Ninguém queria nem olhar para ele, de medo. Seu próprio advogado de defesa disse que o sujeito exalava péssimos fluidos.Mesmo assim conseguiram julgá-lo e condená-lo. Na sentença ele mesmo disse em tom sarcástico: "somando tudo deve de dar uns 135 anos, vou pagar alguns o restante vocês pagam pra mim".

Foi encontrado morto em 1981 em sua própria cela. Disseram na época que ele teve um ataque cardíaco.

 

MEMÓRIA CYBER POLÍCIA

Flashs da década de 70: 1972. Advogado Ariovaldo Campos Pires e o delegado Ediraldo Brandão. 1974. Delegado Grossi. 1977."Joãozinho Metropol" e Saraiva. 1974. Delegado Renato Divany Aragão. 1976. Ediraldo Brandão, Thacir Menezes e Cid Nelson Safe Silveira. 1977. Detetive Alaor, delegado Karan e inspetor "Zé da Fita".


1972. Reunião de delegados. 1975. Reunião de inspetores: Samuel Matozinhos, Ithamar Tiago e Airton Reis de Carvalho. À frente, delegado Lindolfo Coimbra.

1972. Delegados Luiz Soares da Rocha e Rogedo ladeiam Bias Forte. 1978. Zé Resende e Aureliano Chaves. Turma de aspirantes de delegados em 1976: Morais, Merle Gleice, Roberto Xavier, Jacques Pedra, Esperendeus e outros. 1976. Posse Thacir Menezes e Ediraldo Brandão. 1974. Inspetores Frederico e Zé Aparecido. 1977. Delegados Manoel Jacinto e Cid Nelson. 1976. Coronel Venícius Alves da Cunha, Secretário de Segurança e delegados. 1972. Equipe de policiais da REDI.

1977. Coronel Odelmo Teixeira, Thacir e David Hazan. 1979. Coronel Amando Amaral, Secretário de Segurança. Afonso Paulino e Renato Divany Aragão.

1976. Edson Pedra, o Sô Dico e Anésio dos Passos. Na segunda foto os detetives Adir, Anésio dos Passos e Osvaldo Mafaldo em 1977.

Veículos da segunda metade da década de 70. Fiat 147 e Dodge Charger RT.http://cyberpolicia.com.br/index.php/logistica-policial/veiculos-policiais/240-viaturas-policiais-2

                    1972. Prata Neto.                   1974. Fábio Bandeira.                    1978. Detetives em formação. Identificados Cesarino e Geraldo BC no meio da foto.

1973. Encontro de policiais da REDI com o Superintendente Prata Neto.
 

2011 Décadas III: 70 - Repressão, Crimes e os Monstros Serial. © 2012 - Cyberpolicia: História da Polícia Operacional Investigativa
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