História do DEOESP Afonso Pena - 1990/2006- Sequestros

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                                                                         DAS - SEQUESTROS 

 

OS PRIMEIROS SEQUESTROS NO BRASIL

       Rememorando aos tempos do império brasileiro, observamos nos livros “Brasil, Segredo de Estado” e “Quatro Coroas”, a primeira versão de planejamento de um sequestro no Brasil, quando da guerra da Cisplatina. E o plano para o sequestro, envolvia nada menos do que o Imperador D. Pedro I como alvo, que seria arrebatado pelos argentinos. O original desse plano de guerra encontra-se no Archivo Nacional de Buenos Aires. Na América Latina, a Argentina, coincidentemente foi a precursora dos sequestros na década de 60, com cerca de pelo menos quatro crimes ocorridos mensalmente. O objetivo dessa modalidade criminosa naquele país comungava com o pensamento dos grupos europeus e usavam a ideologia política como pano de fundo para as atrocidades praticadas. Era a forma criminosa e fácil de buscar recursos para a guerrilha urbana. No Brasil o sequestro era um crime até então desconhecido e que tomou forma a partir das ações de guerrilha brasileira contra o regime militar que assumiu o país em 1964. O sequestro do embaixador americano foi o marco dos grandes sequestros que foi duramente reprimido pelas polícias de ordem político social do país. Vários guerrilheiros de renome e de grau de intelectualidade acima do padrão normal foram presos e colocados em celas ao lado de criminosos comuns, ocorrendo o repasse de informações e know how de crimes como assaltos a bancos e sequestros para esse bandido que não se atrevia nessas modalidades por desconhecer suas nuances. Por essa razão a partir da década de 70, houve considerável processo migratório da criminalidade para a modalidade de roubo a bancos, com lideranças criminosas como Lúcio Flávio Avelar Lírio, um dos maiores ladrões de banco que a história da criminalidade brasileira conheceu (Ver Seção Bandidos/Lúcio Flávio Avelar Lírio). Por incrível que possa parecer, a modalidade de sequestros só veio a prosperar no Brasil na segunda metade da década de 80, mais precisamente com sequestro do diretor do Bradesco Francisco Beltran Martinez, em dezembro de 1986 e o marco do sequestro no Brasil, cujo valor do resgate superou US$ 4 milhões.

       Os criminosos demoraram a profissionalizar-se como sequestradores, talvez pelo alto custo de logística e estrutura para a prática de crimes que envolviam celebridades, executivos e empresários milionários, cujo valor operacional girava em torno de US$ 100 mil. Podemos citar alguns dos sequestros que ganharam maior notoriedade no país, iniciando pelos ditos “sequestros políticos”: do Embaixador Americano Burke Elbrick, do Cônsul do Japão Nobuo Okuchi, do Embaixador Alemão Ehrenfiel Von Holleben e do Embaixador Suíço Giovanni Enrico Bucher. Em outro seguimento, as vítimas são empresários ou grandes banqueiros como Roberto Medina, Abílio Diniz, Wagner Canhedo Filho, Luís Sales e o próprio Francisco Antônio Beltran Martinez. Como os grandes alvos em potencial passaram a ter uma salvaguarda maior, com treinamentos de prevenção, seguranças e diversas outras atitudes que ofereciam risco maior para os sequestradores, os crimes passaram a ter como referencial, vítimas com menor poder aquisitivo, mas, nem por isso, deixava de render pequenas fortunas extorquidas em troca da libertação das vítimas.

 

“A técnica é universal, o estilo é individual”.



      

             Os anos 80 e 90 marcaram Minas Gerais pela incidência de uma série de sequestros que aterrorizaram as famílias mais abastadas do estado, que viam seus entes serem arrebatados de forma violenta pelos seus algozes e em alguns casos, assassinados. Em contrapartida aos criminosos, surgia no Brasil, uma polícia diferente, eficiente e com ela a inovação da inteligência policial e seus excelentes resultados: a Polícia Civil de Minas Gerais, representada pelo DEOESP. Sua competência serviu de matéria para a revista TIME. Era uma polícia sem fronteiras que incomodava e não dava trégua aos sequestradores, chegando ao índice zero na ultima metade da década de 2000.

          A competência daqueles policiais na repressão aos sequestros não foi construída através de tecnologia e equipamentos de ponta, ao contrário, pela abnegação e comprometimento profissional, em período de ferramentas escassas para as investigações de inteligência, exigidas para a apuração de crimes complexos, como os sequestros. E uma retaguarda de peso chamada José Resende de Andrade. Abaixo registramos algumas dificuldades do policial João Carlos, em uma operadora de telefonia para tentar juntar as peças de um quebra cabeça.

 

          Legítimo representante dos escrivães operacionais, João Carlos demonstrou todo o seu profissionalismo no cartório do DEOESP, na elaboração dos principais e intrincados inquéritos policiais de investigações de Sequestros nos anos 90 e 2000. No entanto, foi muito além da atividade cartorária, participando na linha de frente de várias incursões para resgate de reféns, ou no trabalho inicial de investigações através de interceptações telefônicas. Lealdade, seriedade e comprometimento com a operacionalidade da polícia são adjetivos que estão inseridos e alicerçados no perfil humano e profissional desse policial.

Na relação que conseguimos pesquisar, consta o registro de mais de 20 pessoas sequestradas na década de 90, mas este número certamente é superior devido às dificuldades estatísticas encontradas para busca de informações precisas. A grande maioria foi solucionada. Dentre os casos aqui registrados, podemos destacar alguns que marcaram na vida das vítimas e dos policiais:

1991-Santa Rita do Sapucaí.

 

1991- Sequestro do médico Moisés Szejnbejn


1991- Sequestro do casal de namorados Flávia Pinheiro da Silva e Flávio Pereira Lara.

O sequestro foi planejado pelo protético Darcy Pereira Marinho, preso em Sergipe e condenado a 20 anos de prisão.

 

 

1992- O Sequestro da empresária Enilda Martins.

O sequestrador e sua mulher foram presos na Bahia, onde viviam como marajás.

 

1992- Sequestro de Gleica Maria Fernandino Fonseca, filha de um empresário, na cidade de Sete Lagoas. Guilherme, era filho de um próspero comerciante do ramo de atacado de café e Marcelo trabalhava com seu pai.

 



1993-Guilherme Henrique de Oliveira e Marcelo Nunes em Patrocínio.


O cativeiro foi estourado em Goiânia, após 35 dias de sequestro, onde um dos sequestradores tombou morto na troca de tiros e os reféns resgatados ilesos. Os trabalhos foram coordenados pelo delegado João Reis com o apoio operacional de outros dois delegados: Elson Matos e Ricardo Minelli.


1993- Sequestro e morte da garotinha Mírian Brandão.

 

          O caso de Mírian Brandão, a menininha de cinco anos sequestrada, foi, para os experientes policiais do DEOESP, a pior tragédia que participaram. Através da família foi iniciada a negociação e o desfecho caminhava para o resgate da refém, tendo sua mãe preparado o quarto para receber a menina com todo o carinho que uma mãe poderia dar. Parecia mais um sequestro, com prova de vida comprovada, já que os sequestradores responderam às perguntas sobre a menina. Perguntas que desconhecidos não saberiam responder. Com a prisão dos dois envolvidos no sequestro, os irmãos Willian Gontijo Ferreira e Wellington Gontijo Ferreira, a tragédia veio à tona. Eles confessaram que logo após terem levado a criança para o cativeiro, a menina chorava muito e então a desacordaram com éter, para em seguida ser queimada viva, até virar cinzas. Rosemeire Pinheiro da Silva, empregada da família da vítima, foi quem deu as informações sobre a menina, fazendo com que a polícia e a família acreditassem que estava viva.

(Outras informações, vide em Década de 90, neste site.)

 



1994. Sequestro de Daniel Cosaco, em Varginha.

                                             

 

1995. O Sequestro de Paula Zamboni.

          Policia Civil de Minas, representada pelo DEOESP, invade o Rio, prende policiais militares e identifica um policial civil da DAS - Divisão anti-sequestro do RJ como membro da quadrilha. Uma das maiores demonstrações de profissionalismo e coragem foi o resgate da jovem Paula Zamboni, em 1995, no Rio de Janeiro. A adolescente foi sequestrada por criminosos daquele estado e mantida em cativeiro na baixada fluminense. O DEOESP lutava à época, com todas as dificuldades possíveis em um sequestro desse tipo e ainda, para agravar mais, constatou-se a participação de policiais militares cariocas e a suspeita sobre policiais civis da unidade anti-sequestro do Rio. Os policiais do DEOESP entraram em território fluminense, prenderam os sequestradores, resgataram a refém e ainda tiveram enfrentamentos com policiais daquele estado para conseguir sair de lá, sendo preciso à intervenção pessoal do Chefe de Polícia, Comandante Geral da PM e corregedorias. O resgate foi divulgado por diversos jornais e TVs, com matéria nacional e uma reportagem especial na revista americana TIME.

 

Algumas manchetes:

Desafio e reconhecimento aos profissionais da Polícia civil de Minas Gerais.
O crime atravessa as fronteiras de Minas.
Paula é libertada após estouro do cativeiro na Baixada Fluminense.
Estudante é sequestrada em Minas.
Paula tinha perdido a esperança.
Policiais mineiros libertam Paula Zamboni de PMs do Rio.
Sequestradores tinham pressa: outro refém esperava a "vaga".
Cativeiro estourado.
Policial do DAS participou do sequestro de Paula.
Tenente que ajudou DEOESP sofreu atentado.

 

"Operação Resgate"

"A operação de resgate da menina Paula David Zamboni, por policiais civis do Deoesp, comandados pelo delegado João Reis, Anselmo Gusmão e Elso, mostra a eficiência, inteligência, coragem e tirocínio policial desses homens que fazem da profissão a sua vida em prol da sociedade. Ir ao Rio de Janeiro, subir morro, resgatar a vítima com vida e prender os sequestradores, principalmente de "policiais militares", não é tarefa para qualquer um. Parabéns policiais do Deoesp, confiamos muito em vocês". Delegado João Souza Pereira Filho. Caratinga.


A Liberdade vem de Minas

         

        As investigações em torno do sequestro de Paula Zamboni foram uma das mais complexas, perigosa e intrincadas desenvolvidas por aquele Departamento, pelo envolvimento de policiais civis e militares no crime. Também um dos mais emblemáticos, que colocou o nome DEOESP definitivamente com excelência nas investigações de sequestro no cenário nacional e internacional.

 

                                                           

1990. Sequestro do empresário Gustavo Mosconi, em Andradas.


Sequestradores levaram o refém para São Paulo. Mais uma vez a polícia de Minas demonstra que não tem fronteiras no combate ao crime. Ação integrada da Polícia Civil de Minas e São Paulo possibilitou o estouro do cativeiro e prisão dos sequestradores.

 


1994. O sequestro de Rodrigo Lana.

Polícia Civil de Minas Gerais resgata o refém no Rio de Janeiro.

 

 

 

1996. O sequestro de Santiago Palhares em Frutal.

No sequestro de Frutal, os policiais tiveram uma grande surpresa na prisão dos sequestradores, ao identificarem o líder do bando como sendo Hosmany Ramos, um médico da alta sociedade carioca na década de 70, que se bandeou para o crime e tornou-se o bandido mais procurado do Brasil, após sua última fuga espetacular. Apareceu em uma reportagem da Rede Globo, durante seu período de liberdade, acusando o sistema e ameaçando tudo e todos, portando pistolas de grosso calibre frente às câmeras de TV. Durante sua prisão pelos policiais do DEOESP, Hosmany foi baleado. Artigo sobre Hosmany Ramos no link http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/historia/crimes-e-criminosos

 

 

1996. O Sequestro de Ricardo Renó

As duas fotos abaixo, na casa da vítima Ricardo Renó, revelam dois momentos únicos da vida do policial de repressão ao sequestro naquele lapso temporal: a rigidez do aparato tático, pronto para o enfrentamento em contraste com a segunda, no mesmo local, porém em situação de descontração, diante do dever cumprido. Identificamos alguns dos policiais que participaram nas apurações, presentes nas imagens: "Paraíba", "Ritchie", Wenderson, Sobrinho, João Carlos, "Tafarel", João Reis, Ricardo Peixoto, Elson Matos, João "Piloto", Zeniel, "Bambú", "Índio" e outros a serem oportunamente identificados.

 

 

 1996. Sequestro do vice-prefeito de Brumadinho, o "Picolé".


           A operação para resgate do refém e prisão de 11 sequestradores durou 33 dias. Trabalho policial que exigiu coragem e disposição, quando os criminosos usaram o Paraguai como local de intermediação. A operação foi integrada entre o DEOESP, PC do Paraná e polícia paraguaia. Os policiais do DEOESP penetraram em território paraguaio, sem autorização, tendo como bandeira o lema de que a vida do refém estava acima de todos os perigos.

 

1997. O sequestro de Waldemar Martins e Maria Aparecida em Divinópolis. 

 

 

A Equipe DEOESP 1988/2006 

          Abaixo inserimos alguns registros fotográficos que marcaram a passagem histórica dessa equipe DEOESP, durante seu período de repressão aos sequestro em Minas Gerais. Policiais abnegados e detentores de um orgulho inquestionável pela certeza da excelência dos resultados apresentados. Momentos de ações policiais durante investigações de sequestros e operações especiais em: Nova Era, Santa Rita do Sapucaí, Patrocínio, Varginha, Rio de Janeiro, Além Paraíba, Cataguases, Governador Valadares, Paraguai, Pedro Leopoldo e outras localidades.

 

 

Abaixo, duas fotos que demonstram dois lados distintos da personalidade daqueles policiais: a demonstração de força e vigor, necessários ao enfrentamento de grandes quadrilhas e perigosos marginais, se contrapondo à sensibilidade e carinho dos mesmos policiais do DEOESP, quando da necessidade de socorrer uma parturiente e realizar o parto de emergência. O folder apresentado na foto, símbolo daqueles bravos policiais, diz tudo, em relação ao sentimento de dever cumprido. 

 

         
          Apesar da sigla DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) ser bem parecida com aquele novo Departamento, o DEOESP (Departamento Estadual de Operações Especiais) desenvolveu atividades totalmente voltadas à apuração de crimes violentos, como os sequestros e operações especiais em todo o estado. Destacou-se no cenário policial nacional pela eficiência e competência de seus profissionais. Preliminarmente foi criado o GAS- Grupo anti-sequestro, responsável pelas investigações dessa modalidade criminosa que migrou de São Paulo e Rio de Janeiro para Minas Gerais no final da década de 80 e teve crescimento acentuado nos anos 90. 

 

          No período ocorreram investimentos em treinamento tático e inteligência policial, criando uma elite de profissionais especializados, voltada para o comprometimento com o novo modelo de se fazer polícia. Nomes como João Reis, Elson Matos, Wanderson, Ricardo Peixoto, Chedid, Anselmo, Windsor, Tafarel, Ilton, Marcão, João Carlos, Edir, Rochinha, Chiquinho, Elton, Calixto, Grijó, Welber, Ilton, Zé João, André Lorens, Inácio, Paraíba, "Beiramar", Wainer, Índio e tantos outros policiais, fizeram daquele Departamento um exemplo de sucesso, com apuração da maioria dos sequestros e prisão ou morte por resistência de grande número de sequestradores, dentre eles, Osmany da Silva Ramos, o médico bandido, procurado nacionalmente por seus crimes. Todos os grandes sequestradores do Brasil que atuaram em Minas foram presos ou mortos em confronto com policiais do DEOESP.  

 

  

Abaixo mais uma série de registros dos policiais do DEOESP nos anos de excelência das atividades de polícia judiciária na repressão aos sequestros em Minas Gerais.

Identificamos alguns dos policiais nas fotos: Calixto, Wanderson "Passarinho", Tafarel, Rocchinha, Elton Serakides, "Índio", "Caxangá", Márcio "Bambú", Marquinho Costa, Ricardo, "Paraíba", Chedid, João Rocha, Chiquinho, José João, Sávio, João Rocha e outros ainda sem identificação.

                                   
  Fotos de treinamentos do DEOESP: Detetives "Zé João", Vinícius Lucílio, delegados Ricardo Peixoto e Chedid.
Uma das prioridades desse seleto grupo de policiais foi a especialização 
 e treinamentos táticos diversos.

 

 

O FIM DO DEPARTAMENTO DE OPERAÇÕES ESPECIAIS AFONSO PENA

          Em 2008, o DEOESP em sua antiga estrutura e modalidade de repressão criminosa foi extinto, assim como o Departamento de Investigações, Superintendência de Polícia Metropolitana, Superintendência Regional e outros órgãos, dentro do novo projeto de remodelação dos Departamentos e da própria Polícia Civil. Pouco tempo antes, no ano de 2007, ocorrera a modificação dos métodos operacionais com a mudança na administração daquele Departamento. Buscando melhor aproveitamento da seleção de policiais, foram criadas as Delegacias de Repressão às Organizações Criminosas pelo novo chefe do DEOESP, delegado Faria. Com a aniquilação das principais quadrilhas de sequestradores e assaltantes de banco pelo DEOESP e DERB, aquela administração entendeu que poderia unir os policiais das duas unidades em um único grupo, fundindo as excelentes experiencias no combate às quadrilhas nos dois seguimentos aqui citados. Criou-se as DEROCs - Delegacias de Repressão às Organizações Criminosas.

 

2014. REENCONTRO DOS GRANDES

           Atualmente, a velha guarda de policiais do DEOESP se reencontram para matar a saudade dos amigos e forma fraterna de reunião da equipe que marcou história.

 

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